terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Depressão de Natal??



Com o ano de 2019 quase no fim, confesso que bateu aquela preguiça de escrever por aqui. Mas exatamente por conta disso, comecei a pensar em um dos mitos e pensamentos recorrentes dessa época de festas. Será mesmo que o período de Natal e Réveillon, ao gerar tantas manifestações de fraternidade, generosidade, gratidão etc. etc. , pode trazer depressão ou aumentar os casos de episódios depressivos?
Segundo a ciência, existe sim um tal de “blues natalino”, que é um tipo de transtorno afetivo sazonal. Uma parte da população do planeta apresenta episódios depressivos recorrentes em determinada época do ano. Nada a ver com quem não tolera Carnaval ou não gosta do próprio aniversário.  Esses transtornos sazonais são de fato mais comuns no final do ano. Detalhe: esse transtorno ocorre principalmente no Hemisfério Norte, devido à redução da luz solar característica do período de inverno, que provoca variações hormonais associadas à depressão.  Claramente, não é um problema no Brasil, por mais chuvosa que possa ser a chegada do Natal e Ano Novo.
Assim, fora os citados transtornos sazonais mais ligados a invernos rigorosos, não há evidências de que as festas de final de ano levem algumas pessoas à depressão. Até porque depressão é uma doença séria e crônica, que normalmente leva meses ou mesmo anos para se instalar. O que ocorre em geral é que a época, por representar um fechamento de ciclo e incitar a reflexão sobre o ano transcorrido, pode trazer certa insatisfação, gerando tristeza e melancolia.
Outros fatores fisiológicos podem estar associados a essas sensações: comida em excesso, consumo de álcool (que tem intensa associação com episódios depressivos), redução de sono e falta de exercício físico.
E o que isso tem a ver com diabetes? Tudo e mais um pouco. Na hora da autocrítica com relação ao período que se encerra, é inevitável que o diabetes esteja presente entre as preocupações, satisfações e angústias. Como conduzi meu tratamento? Estou me cuidando adequadamente? Fiz tudo que estava ao meu alcance? Essas são reflexões e questionamentos legítimos e essenciais, pois levam ao crescimento e ao aprimoramento do autocuidado.
O que não vale é cair nas lamentações. “Sofrer” por ter diabetes, por “se privar” de coisas nas festas, por se sentir “diferente”, “amaldiçoado” ou coisa do gênero.
Claro que nessas horas não ajuda em nada aquela prima que fala: “mas você pode comer isso?”. Ou a cunhada que, diante da mesa de doces, traz um pedacinho de melão “especialmente para você”.
Sim, é uma época de excessos. Mas para todo mundo. E os cuidados que você deve ter com a alimentação são os mesmos de todo mundo. Sim, nunca é demais lembrar: os cuidados que você tem com o diabetes, especialmente no que diz respeito à alimentação, são os mesmos que TODOS deveriam ter.
Pode ser que você enfie o pé na jaca no Natal e talvez de novo no Réveillon. Você e todos os outros.  Mas pode ser também que exatamente por ter diabetes você tenha mais consciência do que come, do que bebe e consiga se sair melhor diante de tantos excessos anunciados.  Talvez por ter mais consciência da alimentação e de como isso interfere na sua saúde você se saia melhor nessas festas de fim de ano. Não ganhe quilos a mais. E até consiga comer aquele pedaço de pudim sem fazer um estrago na glicemia.
O importante é não cair na onda do diabetes blues, não deixar que surja um desconforto ou angústia por causa do diabetes. Também não vale confundir as coisas. Se a melancolia aparecer, avalie se o problema está em outros lugares que não o diabetes.
No mais, FELIZ NATAL!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

De bem com a vida. E com o coração.


Ser otimista faz bem para a saúde. Não é mito popular, é o que diz a ciência: estudo publicado em setembro no periódico americano JAMA Network Open concluiu que ter uma atitude otimista perante a vida reduz a ocorrência de eventos cardiovasculares (como infarto e AVC) e a morte por todas as causas.
O estudo – realizado pela conceituada Icahn School of Medicine do hospital Mount Sinai, de Nova York – é uma meta-análise, ou seja, analisou dados de 15 pesquisas sobre o assunto, envolvendo perto de 230 mil pacientes, acompanhados por em media 13,8 anos.
Os resultados são categóricos: otimismo diminui a ocorrência de problemas do coração em nada menos do que 35%! E a redução do risco de morte por todas as causas entre os mais animados é de 14%.
Segundo o líder da pesquisa, o dr. Alan Rozanski, os resultados mostram que “o otimismo é também um importante fator de saúde que ainda não foi bem estudado”. Jeff Huffman,  do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, lembra que esses achados “são consistentes com uma crescente e ampla literatura que mostra que o otimismo em particular e o bem-estar psicológico em geral têm uma associação independente com os resultados cardiovasculares e gerais da saúde”.
O que literatura científica ainda não conseguiu precisar é qual mecanismo fisiológico ligaria diretamente uma atitude positiva a uma vida mais saudável. Uma das hipóteses é que o otimismo seria capaz de reduzir o estado inflamatório do organismo, estado esse comprovadamente associado ao desenvolvimento de doenças.
Por ora, é possível afirmar que otimismo pode estar associado a melhores hábitos de saúde, como a prática de atividade física e alimentação equilibrada. Pessimistas em geral fumam mais, bebem mais e tendem a ser mais sedentários, dizem os pesquisadores. Para o Dr. Rozanski, os dados são consistentes com as evidências “de que os otimistas têm melhores habilidades para a vida e mecanismos de enfrentamento, incluindo uma tendência maior a adotar comportamentos pró-ativos que evitam problemas futuros. Os hábitos pró-ativos de saúde parecem fazer parte disso. ”
O próximo passo das pesquisas é descobrir se induzir otimismo (ou “tratar” o pessimismo) produz benefícios semelhantes à saúde. "Estudos futuros devem procurar definir melhor os mecanismos bio-comportamentais subjacentes a essa associação e avaliar o benefício potencial de intervenções projetadas para promover otimismo ou reduzir o pessimismo", afirmam os autores.

E o diabetes?
Claro que tudo que contei acima leva à conclusão de que devemos ser otimistas. Quem tem diabetes, a rigor, deveria procurar mais ainda essa atitude positiva, para evitar os riscos cardiovasculares.
Mas quem se percebe diariamente com uma condição crônica, que exige tantos cuidados e preocupações, pode nem sempre conseguir manter o otimismo. Como lidar com o chamado diabetes distress, termo que descreve a angústia resultante do convívio com o diabetes e o ônus da incansável autogestão (tema para outro post)? 
Bem, volto aqui ao tema desse blog: sair do armário! Sim, porque a primeira atitude positiva a ser tomada frente ao diabetes é assumir a condição. É falar – sem vergonha, sem medo e sem preconceito – sobre todas as preocupações, dificuldades, dúvidas. Leia Porque estou aqui e Estigma.
Não precisa ser feliz e otimista PORQUE tem diabetes. Mas dá para ser feliz e otimista APESAR do diabetes.


Referência:
Rozansky A et al. Association of Optimism With Cardiovascular Events and All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2019;2(9):e1912200.d Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2019;2(9):e1912200.

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