segunda-feira, 30 de abril de 2018

425 milhões... e contando




O diabetes é uma pandemia. Ou seja, é uma epidemia que atinge proporções planetárias.
Segundo o Atlas da IDF (International Diabetes Federation), de 2017, estima-se que existam em todo o mundo nada menos do que 425 milhões de pessoas com diabetes. E isso contando apenas os adultos – de 20 a 79 anos. Para 2045, a previsão é que esse número chegue a 629 milhões. No ano passado, 4 milhões de pessoas do planeta morreram diretamente por causa do diabetes, a metade delas com menos de 60 anos.
Mas o problema não para por aí. O número de adultos com intolerância à glicose – e portanto com grandes chances de desenvolver diabetes tipo 2 – supera 350 milhões.
No Brasil, ainda de acordo com o levantamento da IDF, existem hoje cerca de 12,5 milhões de adultos (20 a 79 anos) com diabetes. Foram mais de 100 mil mortes explicitamente ligadas ao diabetes, 41% delas com menos de 60 anos. Para 2045, a previsão é de que serão mais de 20 milhões de brasileiros com diabetes. Provavelmente devido aos casos de intolerância à glicose hoje registrados: mais de 14,5 milhões de adultos.
No entanto, esse número pode – e deve – ser ainda maior. Levantamento realizado em 2011 pelo Ministério da Saúde mostra que o diabetes atinge 11% da população brasileira, o que equivale a cerca de 21 milhões de pessoas. Desses, quase 80% têm diabetes tipo 2.
Se esses dados já não fossem suficientemente alarmantes, tem mais: no mundo inteiro – e o Brasil não é exceção –, metade das pessoas com diabetes NÃO SABE que têm a doença. Isso é devastador. Porque são exatamente essas milhões de pessoas que vão desenvolver complicações do diabetes. Mas não apenas elas (e lá vem mais notícia ruim...). Estudos mostram que da metade das pessoas que sabem que têm diabetes, apenas metade faz alguma coisa a respeito. Ou seja, apenas 25% da população com diabetes segue algum tipo de tratamento.
O que, para piorar, nem sempre significa sucesso. Foi o que comprovou o Estudo Epidemiológico sobre Controle do Diabetes, de 2007, que avaliou 6.700 pacientes de 8 Estados brasileiros: 73,2% das pessoas com DM2 no Brasil têm controle inadequado (hemoglobina glicada acima de 7%).
Desculpe se pareço o arauto das más notícias. Mas pense positivamente: se você sabe que tem DM2, considere-se um privilegiado. Sim, você já sai com uma vantagem. E para que essa vantagem seja efetiva, assuma o tratamento, assuma o controle do diabetes. Só assim poderemos mudar essa história.




quinta-feira, 26 de abril de 2018

Me diz que eu sou seu tipo...


Eu aqui falando para o DM2 sair do armário e você sequer sabe se tem diabetes. Ou qual o seu tipo. Mesmo que você tenha o diagnóstico fechado pelo seu médico e já esteja tratando do seu diabetes, será que você sabe que tipo de diabetes você tem?
Vamos lá: existem dois tipos principais de diabetes.
·         Diabetes tipo 1: acontece quando o pâncreas para de produzir insulina, o hormônio responsável por levar a glicose (açúcar) do sangue para dentro das células, onde vai virar energia. Normalmente, o diabetes tipo 1 acomete crianças, adolescentes e adultos jovens. Eu disse normalmente, mas não exclusivamente. O tratamento para o DM1 é insulina. Injeções diárias, múltiplas doses, necessariamente. Porque a pessoa precisa repor o hormônio que o corpo deixou de produzir.
·         Diabetes tipo 2: é uma doença multifatorial. Acontece devido a uma série de “defeitos” que ocorrem simultaneamente em vários órgãos e fazem a glicemia (o açúcar do sangue) subir. O DM2 acomete principalmente pessoas com mais de 40 anos. Pode ser tratado com medicação oral e/ou injetável e/ou insulina. Existem várias medicações, cada uma com a missão de combater cada um desses defeitos.
O DM2 surge a partir de uma propensão genética. Se seus pais, avós, irmãos têm diabetes tipo 2, suas chances de desenvolver a doença são maiores. Além disso, o DM2 pode ter seu surgimento precipitado por hábitos inadequados, como alimentação irregular, sedentarismo e obesidade, especialmente aquela gordura acumulada ao redor da cintura. E aí está a origem do preconceito, do estigma, do embaraço....
Existem ainda outros tipos de diabetes, como o gestacional, o Mody, o Lada. Falaremos sobre eles em outras publicações.
Mas como saber se você tem mesmo diabetes? Voltando ao começo: uma pessoa tem diabetes quando apresenta excesso de glicose no sangue.  Essa glicose é obtida a partir da metabolização dos alimentos e segue para o sangue, que distribui esse açúcar para todas as células do organismo, para virar energia.
Esse transporte, esse movimento da glicose em direção às células, é mediada pela insulina, produzida no pâncreas. É a insulina que tira a glicose do sangue e coloca dentro da célula. Se a insulina está insuficiente e/ou não funciona direito, surge o diabetes.
Para saber se uma pessoa tem diabetes ou não, os médicos usam o que eles chamam de critérios de diagnóstico. E esses critérios se baseiam na tal da glicemia, que nada mais é do que a taxa de açúcar no sangue. Quando a pessoa passa dos níveis chamados normais, tem diabetes. Para diagnosticar o diabetes, o médico usa a tabela abaixo, que são os critérios estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Diabetes.


Lembrando que:
Glicemia de jejum: 8 horas
HbA1C:  hemoglobina glicada, exame que avalia qual a média de glicemia dos três meses anteriores a partir do número de hemoglobinas alteradas pela glicose. E o que é hemoglobina mesmo? É uma proteína presente nas hemácias (as células vermelhas do sangue) responsável pelo transporte de oxigênio.

IMPORTANTE: você mediu sua glicemia no almoço de domingo com o glicosímetro da mãe da sua cunhada. E aí o número foi maior do que 200 mg/dl. PÂNICO!!! O que fazer agora? Procure um médico! Dúvidas de diagnóstico são resolvidas pelos médicos. Esses exames, quando alterados, devem ser repetidos para que se feche um diagnóstico de diabetes. E – repito – o diagnóstico é fechado apenas pelo médico.
É a partir deste diagnóstico que o médico vai definir qual o tipo de conduta clínica a ser adotada. Se você vai precisar de medicamento, que outros exames você vai precisar fazer, se vai fazer rastreamento para verificar a existência de complicações já instaladas etc. etc.
O importante é: confirmado que você tem diabetes, NÃO SE APAVORE. Isso não é, de jeito nenhum, o fim do mundo. Significa que você tem uma condição crônica que você vai ter que manejar. Isso não significa que você nunca mais vai poder comer nada que você gosta, não significa que você vai ficar cego, que você vai perder uma perna. Sobre todos esses assuntos vamos conversar aqui em outros posts.
Outra coisa: não se esconda. TOME UMA ATITUDE pelo diabetes. O importante é ter consciência de que o DM2 precisa ser tratado e pode ser controlado.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Estigma


A ideia de criar um blog sobre diabetes tipo 2 surgiu de duas experiências que vivi ano passado (2017). Participei, em outubro, do I Encontro de Pacientes e Blogueiros de Diabetes, promovido pela organização Blogueiros da Saúde. Meu espanto: TODOS os blogs ali representados concentravam-se majoritariamente (se não exclusivamente) no diabetes tipo 1. Em dezembro, durante o congresso da IDF (International Diabetes Federation), em Abu Dhabi (Emirados Árabes), assisti à palestra de Robin (Bob) Swindell, sobre Estigma e Diabetes Tipo 2.
O estigma enfrentado no diabetes tipo 1 tem sido bastante estudado, há tempos. Felizmente, o DM2 começou a ser alvo das pesquisas sobre o tema. A experiência na Europa relatada por Bob Swindell é a mesma que percebo por aqui: o DM2 é visto apenas como um assunto ligado à obesidade, um problema “menor”, facilmente contornável com mudanças no estilo de vida. Portanto, carrega todos os estereótipos reservados àqueles acima do peso: preguiça, falta de força de vontade, falta de comprometimento. Além do preconceito, por si só um enorme problema, esse entendimento traz barreiras ao engajamento com a doença, ao autocontrole e, consequentemente, aos bons resultados do tratamento.
Pesquisa realizada nos Estados Unidos pela dQ&A (Diabetes Questions and Answers) junto a mais de 5.400 americanos com diabetes mostrou que, entre os DM2, 52% sentem estigma social pela sua condição, traduzido na maioria das vezes na percepção de fracasso na sua responsabilidade pessoal. Muitos dos entrevistados acreditam que o diabetes é visto como um fardo para o sistema de saúde. E, pior ainda, como resultado de uma falha de caráter. Consequências? Culpa, vergonha, constrangimento, isolamento.
O estudo da dQ&A mostrou ainda que a pessoa com diabetes não apenas se sente estigmatizada, mas – como eu disse acima – esse estigma atrapalha o controle da doença e a adoção de hábitos saudáveis. Também afeta os relacionamentos sociais, pois torna mais difícil para o DM2 falar sobre diabetes com amigos e familiares, fazer amigos, aproveitar a vida plenamente, se sentir acolhido e apoiado para cuidar do diabetes e até mesmo ter sucesso profissional (TODOS fatores citados pelos entrevistados).
Recentemente, uma amiga disse ter ouvido do médico que se ela não controlasse melhor o diabetes, ele iria “desistir dela”. Se alguém tem uma infecção e o antibiótico não fez efeito, o médico também pensa em “desistir”?? A comparação pode parecer grosseira, sei que o controle do diabetes depende em grande parte do engajamento do paciente, mas para isso ele precisa ser educado, acolhido, orientado. E encorajado sim! Mas existe uma linha muito tênue separando o encorajamento e a atribuição de culpa. Palavras são armas poderosas. Pensamentos e ajuizamentos também. E podem ser usados para ajudar ou não a pessoa com DM2. Mas isso é assunto para outro post.



Veja a apresentação de Bob Swindel em www.fractis.net.
Saiba mais sobre o encontro de Blogueiros de Diabetes em www.blogueirosdasaude.org.br.
Sobre a pesquisa da dQ&A: https://diatribe.org/issues/67/learning-curve


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Porque estou aqui


Olá, amigos e amigas!
A primeira coisa que tenho a declarar é que NÃO tenho diabetes. Então por que estou escrevendo sobre esse assunto? Bem, como você pode ver na minha biografia ali do lado, sou profissional de saúde. E educadora em diabetes. Isso significa que há alguns anos trabalho junto a pessoas com diabetes e a profissionais que cuidam de pessoas com diabetes. E faço isso há tempo suficiente para saber que quem tem diabetes tipo 2 está desassistido. Não apenas por falta de atendimento adequado na rede de saúde, por falta de insumos e medicamentos. Mas principalmente está desassistido por falta de conscientização.
Sim, o DM2 muitas vezes nem sabe que tem a doença. Quando sabe, quase nunca se trata adequadamente. E isso acontece principalmente porque a pessoa com diabetes tipo 2 não assume a doença, não “sai do armário”. Os discursos são vários: “Ah, uma vez meu açúcar estava alto, mas depois nem vi mais”; “Está tudo bem, fiz exame há 3 meses”; “Tenho diabetes fraco, nem preciso tratar”; “Eu sou sem-vergonha mesmo”; “Tenho preguiça”; “Melhor morrer do que deixar de comer o que eu gosto”.
E por aí vai....
Por essas e outras é que perto de 90% das pessoas com DM2 têm controle ruim. Porque não assumir o diabetes significa não se tratar adequadamente. Significa correr riscos. Significa não ter qualidade de vida. E as pessoas não assumem o DM2 por vários motivos. Às vezes porque têm medo, às vezes porque não sabem o real risco do diabetes. Mas principalmente não assumem porque têm culpa. A sociedade – e o próprio indivíduo – vê o diabetes tipo 2 apenas como consequência de hábitos ruins e escolhas inadequadas. O diabetes tipo 2 é, segundo o preconceito, responsabilidade de quem tem a doença. O DM2 não é um “coitado”. É “sem-vergonha”, “não tem força de vontade” etc. etc. etc.
O que eu pretendo com esse blog é, como não poderia deixar de ser, levar informação sobre DM2. Mas, principalmente, quero mudar essa realidade. Quero abrir um canal para que a pessoa com DM2 se manifeste. Fale de seus problemas e dificuldades com o diabetes. Se assuma. Assumir significa ter informação, saber qual o tratamento mais adequado, ter consciência das complicações de um controle ruim, buscar qualidade de vida, fazer as melhores escolhas, lutar pelo melhor atendimento. Quero que a pessoa com diabetes tipo 2 SAIA DO ARMÁRIO. Tenha voz! E, com isso, conquiste saúde!!

Nova insulina no mercado. E eu com isso?

Chegou recentemente ao mercado brasileiro a insulina FIASP ( Fast-Acting Insulina Aspart ), do laboratório Novo Nordisk. Trata-se de uma i...