quarta-feira, 24 de junho de 2020

Nova insulina no mercado. E eu com isso?


Chegou recentemente ao mercado brasileiro a insulina FIASP (Fast-Acting Insulina Aspart), do laboratório Novo Nordisk. Trata-se de uma insulina análoga, do tipo ultrarrápida que, de fato, é duas vezes mais “ligeira” do que as insulinas de ação rápida comercializadas até aqui.
A mágica acontece com pequenas alterações na molécula da insulina aspart (nome comercial Novo Rapid), o que garante a otimização da absorção. Não só a FIASP começa a agir mais rapidamente como nos primeiros 15 minutos após a aplicação disponibiliza mais insulina em circulação.
O resultado é melhor glicemia pós-prandial, aquela que vem depois das refeições. E, consequentemente, redução significativa da hemoglobina glicada, um dos principais parâmetros de controle do diabetes. Também reduz o risco de hipoglicemia.
A FIASP pode ser administrada 2 minutos antes das refeições e até 20 minutos depois, se necessário. Vale lembrar: trata-se de uma insulina de bolus, ou seja, aplicada para “cobrir” o carboidrato ingerido em uma refeição ou para corrigir uma eventual hiperglicemia. Deve ser usada em conjunto com uma insulina basal, de ação lenta ou intermediária (NPH, glargina, levemir, degludeca).  Ou com medicamentos orais, como a metformina. Também pode ser utilizada no SIC (Sistema de Infusão Contínua), popularmente conhecido como bomba de insulina.
Dito tudo isso, você deve estar se perguntando: e eu com isso? Insulina ultrarrápida é coisa de diabetes tipo 1, certo? Errado, claro.
Primeiro, vamos falar de ciência. Entre os estudos realizados para o lançamento da FIASP, está o Onset 9, aplicado em pacientes com diabetes tipo 2. Foi um levantamento de 16 semanas, duplo cego, multicêntrico, tudo de bom. Os resultados foram significativas quedas na glicemia pós-prandial e na hemoglobina glicada entre os analisados.
Em segundo lugar, a prática. A tal glicemia pós-prandial é a que comumente está alterada no diabetes tipo 2. E mais: é ela que interfere mais intensamente no risco de desenvolvimento de doença cardiovascular (uma das principais ameaças para quem tem diabetes, de qualquer tipo).
O uso de insulinas rápidas e ultrarrápidas, bem como da insulina inalável lançada em 2019 (leia Insulina inalável chega ao Brasil) pode ajudar a prevenir a o aumento da glicemia depois das refeições, seja para quem está em esquema de insulinização plena ou mesmo aqueles que usam medicação oral e podem ter bons resultados com o uso da insulina nas refeições.
Insulina não é um bicho de sete cabeças e está longe de representar o fim da linha para quem tem diabetes tipo 2 (leia Insulina sem estigma - Parte 1 e Parte 2 e também Insulina sem mistérios). A FIASP é uma opção a mais para melhorar o controle e, assim, conquistar mais qualidade de vida com diabetes. Converse com seu médico ou profissional de saúde.

Fontes:
Diretrizes SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) – 2020
www.novonordisk.com.br


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Nova opção no SUS ajuda o coração


Remédios para o coraçãoNeste momento conturbado que o mundo atravessa, em meio às incertezas e preocupações geradas pela pandemia de Covid-19 e o distanciamento social dela decorrente, pelo menos uma boa notícia para quem tem diabetes tipo 2. Foi publicada no dia 04 de maio a Portaria número 16 do Ministério da Saúde que determina a incorporação do medicamento dapagliflozina no SUS para o tratamento de DM2 no Brasil.
Ter mais um medicamento à disposição para tratar qualquer doença é sempre uma boa notícia. O diabetes tipo 2 é uma disfunção multifatorial, com evolução distinta de indivíduo para indivíduo. Portanto, não tem uma “receita de bolo” para ser controlado. Para cada pessoa, há um tratamento adequado. Logo, com mais opções há maior chance de se chegar à terapia ideal.
A dapagliflozina é um medicamento da classe dos inibidores de SGLT-2 (do inglês, cotranspotador sódio-glicose). Esse tal SGLT-2 é uma proteína presente no rim responsável por reabsorver a glicose que é filtrada antes que seja eliminada pela urina. Ao bloquear o SGLT-2, o medicamento reduz essa reabsorção, aumentando a excreção de glicose e reduzindo os níveis de açúcar no sangue.
Além de melhorar o controle da glicemia, os inibidores de SGLT-2 mostraram uma apreciável vantagem adicional: reduzem o risco cardiovascular, um dos principais “fantasmas” de quem tem diabetes (leia E o coração padece e Falha na bomba).
No caso específico da dapagliflozina, o medicamento que vai passar a ser oferecido pelo SUS, os benefícios foram estabelecidos pelo estudo DECLARE-Timi 58, um grande ensaio clínico realizado entre 2013 e 2018 com mais de 17 mil indivíduos de 33 países. Todos os analisados tinham diabetes tipo 2 e mais histórico de doença cardiovascular ou múltiplos fatores de risco.
O estudo mostrou que a dapagliflozina, além de diminuir significativamente a glicemia e a hemoglobina glicada, reduz as taxas de morte por doença cardiovascular e de hospitalização por insuficiência cardíaca. Outro benefício é que a proteção dos rins, reduzindo até mesmo progressão da doença renal já instalada.
As boas notícias não param por aí. A dapagliflozina mostrou queda da pressão arterial sistólica. E, por conta da maior excreção de glicose pela urina (cerca de 50g a 90g por dia), pode ocorrer também redução de peso – em média 2 a 3 kg.
Mas claro que existem efeitos colaterais. Exatamente por causa da maior presença de glicose na urina, a dapagliflozina (e os demais inibidores de SGLT-2) podem causar infecções genitais e no trato urinário, como candidíase. E há um risco aumentado de cetoacidose para quem faz uso de insulina.
Se você ficou animado, acalme-se. Em primeiro lugar porque a dapagliflozina só vai estar disponível no SUS, na melhor das hipóteses, em outubro. Além disso, o médico é que vai determinar se esse é um medicamento indicado para você. Sempre levando em conta o nível de hemoglobina glicada, o risco de hipoglicemia, tolerabilidade e disponibilidade.
A indicação é que a dapagliflozina seja usada como segundo fármaco, normalmente em associação com a metformina. 
Vale sempre lembrar que o diabetes tipo 2, como já disse acima, é uma doença multifatorial que tem desenvolvimento distinto de indivíduo para indivíduo. Portanto, a dapagliflozina pode ser ótima para seu vizinho, mas não para você.
A dapagliflozina é uma opção terapêutica adicional.  Converse com seu médico.





terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Depressão de Natal??



Com o ano de 2019 quase no fim, confesso que bateu aquela preguiça de escrever por aqui. Mas exatamente por conta disso, comecei a pensar em um dos mitos e pensamentos recorrentes dessa época de festas. Será mesmo que o período de Natal e Réveillon, ao gerar tantas manifestações de fraternidade, generosidade, gratidão etc. etc. , pode trazer depressão ou aumentar os casos de episódios depressivos?
Segundo a ciência, existe sim um tal de “blues natalino”, que é um tipo de transtorno afetivo sazonal. Uma parte da população do planeta apresenta episódios depressivos recorrentes em determinada época do ano. Nada a ver com quem não tolera Carnaval ou não gosta do próprio aniversário.  Esses transtornos sazonais são de fato mais comuns no final do ano. Detalhe: esse transtorno ocorre principalmente no Hemisfério Norte, devido à redução da luz solar característica do período de inverno, que provoca variações hormonais associadas à depressão.  Claramente, não é um problema no Brasil, por mais chuvosa que possa ser a chegada do Natal e Ano Novo.
Assim, fora os citados transtornos sazonais mais ligados a invernos rigorosos, não há evidências de que as festas de final de ano levem algumas pessoas à depressão. Até porque depressão é uma doença séria e crônica, que normalmente leva meses ou mesmo anos para se instalar. O que ocorre em geral é que a época, por representar um fechamento de ciclo e incitar a reflexão sobre o ano transcorrido, pode trazer certa insatisfação, gerando tristeza e melancolia.
Outros fatores fisiológicos podem estar associados a essas sensações: comida em excesso, consumo de álcool (que tem intensa associação com episódios depressivos), redução de sono e falta de exercício físico.
E o que isso tem a ver com diabetes? Tudo e mais um pouco. Na hora da autocrítica com relação ao período que se encerra, é inevitável que o diabetes esteja presente entre as preocupações, satisfações e angústias. Como conduzi meu tratamento? Estou me cuidando adequadamente? Fiz tudo que estava ao meu alcance? Essas são reflexões e questionamentos legítimos e essenciais, pois levam ao crescimento e ao aprimoramento do autocuidado.
O que não vale é cair nas lamentações. “Sofrer” por ter diabetes, por “se privar” de coisas nas festas, por se sentir “diferente”, “amaldiçoado” ou coisa do gênero.
Claro que nessas horas não ajuda em nada aquela prima que fala: “mas você pode comer isso?”. Ou a cunhada que, diante da mesa de doces, traz um pedacinho de melão “especialmente para você”.
Sim, é uma época de excessos. Mas para todo mundo. E os cuidados que você deve ter com a alimentação são os mesmos de todo mundo. Sim, nunca é demais lembrar: os cuidados que você tem com o diabetes, especialmente no que diz respeito à alimentação, são os mesmos que TODOS deveriam ter.
Pode ser que você enfie o pé na jaca no Natal e talvez de novo no Réveillon. Você e todos os outros.  Mas pode ser também que exatamente por ter diabetes você tenha mais consciência do que come, do que bebe e consiga se sair melhor diante de tantos excessos anunciados.  Talvez por ter mais consciência da alimentação e de como isso interfere na sua saúde você se saia melhor nessas festas de fim de ano. Não ganhe quilos a mais. E até consiga comer aquele pedaço de pudim sem fazer um estrago na glicemia.
O importante é não cair na onda do diabetes blues, não deixar que surja um desconforto ou angústia por causa do diabetes. Também não vale confundir as coisas. Se a melancolia aparecer, avalie se o problema está em outros lugares que não o diabetes.
No mais, FELIZ NATAL!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

De bem com a vida. E com o coração.


Ser otimista faz bem para a saúde. Não é mito popular, é o que diz a ciência: estudo publicado em setembro no periódico americano JAMA Network Open concluiu que ter uma atitude otimista perante a vida reduz a ocorrência de eventos cardiovasculares (como infarto e AVC) e a morte por todas as causas.
O estudo – realizado pela conceituada Icahn School of Medicine do hospital Mount Sinai, de Nova York – é uma meta-análise, ou seja, analisou dados de 15 pesquisas sobre o assunto, envolvendo perto de 230 mil pacientes, acompanhados por em media 13,8 anos.
Os resultados são categóricos: otimismo diminui a ocorrência de problemas do coração em nada menos do que 35%! E a redução do risco de morte por todas as causas entre os mais animados é de 14%.
Segundo o líder da pesquisa, o dr. Alan Rozanski, os resultados mostram que “o otimismo é também um importante fator de saúde que ainda não foi bem estudado”. Jeff Huffman,  do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, lembra que esses achados “são consistentes com uma crescente e ampla literatura que mostra que o otimismo em particular e o bem-estar psicológico em geral têm uma associação independente com os resultados cardiovasculares e gerais da saúde”.
O que literatura científica ainda não conseguiu precisar é qual mecanismo fisiológico ligaria diretamente uma atitude positiva a uma vida mais saudável. Uma das hipóteses é que o otimismo seria capaz de reduzir o estado inflamatório do organismo, estado esse comprovadamente associado ao desenvolvimento de doenças.
Por ora, é possível afirmar que otimismo pode estar associado a melhores hábitos de saúde, como a prática de atividade física e alimentação equilibrada. Pessimistas em geral fumam mais, bebem mais e tendem a ser mais sedentários, dizem os pesquisadores. Para o Dr. Rozanski, os dados são consistentes com as evidências “de que os otimistas têm melhores habilidades para a vida e mecanismos de enfrentamento, incluindo uma tendência maior a adotar comportamentos pró-ativos que evitam problemas futuros. Os hábitos pró-ativos de saúde parecem fazer parte disso. ”
O próximo passo das pesquisas é descobrir se induzir otimismo (ou “tratar” o pessimismo) produz benefícios semelhantes à saúde. "Estudos futuros devem procurar definir melhor os mecanismos bio-comportamentais subjacentes a essa associação e avaliar o benefício potencial de intervenções projetadas para promover otimismo ou reduzir o pessimismo", afirmam os autores.

E o diabetes?
Claro que tudo que contei acima leva à conclusão de que devemos ser otimistas. Quem tem diabetes, a rigor, deveria procurar mais ainda essa atitude positiva, para evitar os riscos cardiovasculares.
Mas quem se percebe diariamente com uma condição crônica, que exige tantos cuidados e preocupações, pode nem sempre conseguir manter o otimismo. Como lidar com o chamado diabetes distress, termo que descreve a angústia resultante do convívio com o diabetes e o ônus da incansável autogestão (tema para outro post)? 
Bem, volto aqui ao tema desse blog: sair do armário! Sim, porque a primeira atitude positiva a ser tomada frente ao diabetes é assumir a condição. É falar – sem vergonha, sem medo e sem preconceito – sobre todas as preocupações, dificuldades, dúvidas. Leia Porque estou aqui e Estigma.
Não precisa ser feliz e otimista PORQUE tem diabetes. Mas dá para ser feliz e otimista APESAR do diabetes.


Referência:
Rozansky A et al. Association of Optimism With Cardiovascular Events and All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2019;2(9):e1912200.d Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2019;2(9):e1912200.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O peso do mundo


Em 2025, estima-se que 2,3 bilhões de pessoas no planeta estarão acima do peso. Os obesos somarão 700 milhões. No Brasil, segundo dados da pesquisa Vigitel de 2018, a obesidade atinge 41 milhões de pessoas – quase 20% da população.
Neste 11 de outubro, Dia Mundial da Obesidade, mais uma vez entidades nacionais e internacionais se unem para alertar sobre os perigos desta que é uma das maiores doenças dos tempos atuais – se não a maior. A SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) encabeça a campanha no Brasil, que tem como objetivo “estimular e apoiar ações práticas que ajudarão as pessoas a alcançar e manter um peso saudável e reverter a crise global da obesidade”.
Já escrevi aqui sobre a relação entre obesidade e diabetes tipo 2 (leia Cinturinha de pilão?) e sobre o estigma que ronda as duas condições (leia Respeito é bom). Mas entra ano, sai ano e o problema persiste. Ou piora. Desde 1975, o número de obesos no mundo quase triplicou. No Brasil, o aumento foi de 60% nos últimos 12 anos.
Daí a importância de datas e ações como as que vão acontecer esta semana para conscientizar as pessoas. Nunca é demais lembrar que obesidade é uma doença crônica que, segundo a Organização Mundial de Saúde, está associada a outras 195 complicações – doenças cardiovasculares (pressão alta, dislipidemia, insuficiência cardíaca e embolia pulmonar), asma, esteatose hepática (gordura no fígado), apneia do sono e até alguns tipos de câncer, além do diabetes, é claro. Sem contar que pode diminuir a expectativa de vida em até 10 anos.
Como uma doença crônica, a obesidade requer tratamento adequado e contínuo. O pilar desse tratamento é a mudança de estilo de vida, com a prática regular de atividade física e a adoção de um plano alimentar saudável (maior consumo de frutas, verduras e legumes; restrição aos alimentos ultraprocessados e às bebidas açucaradas, maior consumo de água). Mas também pode se fazer necessário o uso de medicamentos, cirurgias e/ou acompanhamento psicoterápico.
Não é fácil tratar a obesidade. É uma condição complexa, influenciada por fatores genéticos, fisiológicos, metabólicos, sociais, ambientais e psicológicos. E cercada de tantos mitos e preconceitos.
Por isso, neste Dia Mundial da Obesidade, tomo a liberdade de reproduzir aqui o Manifesto da campanha da SBEM. Leiam abaixo:

OBESIDADE: EU TRATO COM RESPEITO
Tratar a obesidade com respeito implica disseminar informações sobre o assunto de maneira responsável, checando suas referências. É deixar o sensacionalismo de lado ao abordar o tema. É não dar destaque a dietas milagrosas que colocam em risco a saúde e a vida das pessoas. Tratar a obesidade com respeito é respeitar o paciente com obesidade. Respeitar a sua condição, é não reforçar a ideia errada de que a obesidade é culpa de quem tem.
Tratar a obesidade com respeito é reconhecer que ela é uma doença crônica multifatorial.
Tratar a obesidade com respeito é investir na criação de políticas públicas de prevenção e tratamento, investir em protocolos e diretrizes junto às sociedades do setor para atender da melhor maneira o paciente com obesidade, tanto no âmbito público quanto no privado. É investir no acesso ao tratamento multidisciplinar.
Tratar a obesidade com respeito é integrar o tema aos currículos das escolas de medicina e de outras profissões ligadas ao atendimento do paciente com obesidade. É investir em atualização contínua desses profissionais. Tratar a obesidade com respeito é respeitar a ciência e suas descobertas, e apoiar estudos na área. É reconhecer a necessidade do acesso ao tratamento completo, que pode, sim, incluir medicamentos, como em qualquer doença crônica. É considerar a cirurgia bariátrica como parte do tratamento, quando necessário.

Saiba mais:
World Obesity Federation: www.worldobesity.org
Campanha Saúde Não se Pesa: https://www.saudenaosepesa.com.br 


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A culpa nem sempre é do carboidrato


Comer proteína e gordura também afeta a glicemia. Pronto, falei!!
Tá achando que é pegadinha? Afinal, durante anos você ouviu dizer que são os carboidratos que fazem subir as taxas de açúcar no sangue. Aposto que no diagnóstico você reduziu ou mesmo tentou parar de consumir batata, pão, torta, macarrão – sem contar os doces, é claro. Mas na hora daquele churrasco na casa do seu cunhado, dá para relaxar. É só não comer pão nem farofa que está tudo bem, a glicemia fica sob controle.
Só que não... Quer dizer, a história não é bem assim.
O assunto é tão relevante e atual que virou tema de uma Nota Técnica do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes, lançada no último mês de junho. Vale ressaltar que o documento da SBD é dirigido para pessoas com diabetes tipo 1 que seguem a chamada contagem de carboidratos, ou seja, que calculam a dose de insulina que vão aplicar com base na quantidade de carboidrato ingerida a cada refeição.  Mas não se engane: o documento é também de crucial importância para quem tem diabetes tipo 2, especialmente por trazer a público informações embasadas e esclarecedoras.
O que informa a nota? Diversos estudos comprovam que gordura e proteína também podem interferir no perfil glicêmico pós-prandial, ou seja, nos níveis de açúcar do sangue depois das refeições. Lembrando que essa hiperglicemia pós-prandial está fortemente relacionada ao aumento da hemoglobina glicada e, portanto, do risco de complicações futuras.
Como acontece?
Com relação à proteína, em geral o consumo traz um efeito tardio sobre a glicemia (mais de 100 minutos depois da comer). Mas a resposta vai ser distinta dependendo se, na refeição, estiver ou não acompanhada de carboidrato. Estudo citado na Nota Técnica do Departamento de Nutrição da SBD mostra que, em uma refeição sem carboidrato, o aumento da glicemia acontece se forem consumidos mais do que 75 gramas de proteína (aproximadamente 300 gramas de carne). Já em uma refeição com carboidrato, 30 gramas de proteína (cerca de 150 g de carne) já são suficientes para que a glicemia suba mais do que apenas a elevação relacionada ao carboidrato.
Já a gordura, normalmente consumida junto com outros nutrientes, tem a capacidade de alterar a resposta glicêmica do carboidrato. Na verdade, torna mais lento o esvaziamento gástrico e, consequentemente, a absorção da glicose. Mas isso não é bom? Nesse caso, não. A gordura minimiza o efeito da glicemia no pós-prandial (2 horas depois da refeição), mas provoca hiperglicemia ao longo das horas seguintes. Essa hiperglicemia tardia pode perdurar por horas. Imagine que na sexta-feira à noite você comeu pizza. Conferiu a glicemia duas horas depois e estava tudo certo. Foi dormir sem preocupação. Na manhã seguinte, porém, vem a surpresa da hiperglicemia. A gordura da pizza faz com que o carboidrato demore mais para chegar ao sangue. E, quando chega, vem com tudo.
Parece complicado, não é? Ainda mais porque a resposta glicêmica ao consumo de gordura e/ou proteína é INDIVIDUAL.
Mas a solução não é começar a fazer contas, muito menos parar de comer. O que deve servir de lição nessas conclusões da ciência é que não há uma “receita de bolo” muito menos uma fórmula mágica para deixar a glicemia sob controle.  Faça você uso de insulina ou de medicação oral, a saída está no equilíbrio. Embora as dietas low carb (assunto para outro post) possam ter algum efeito no controle da glicemia, não é simplesmente cortando carboidrato do seu plano alimentar que tudo está resolvido. Equilíbrio, repito, é fundamental.
Uma das recomendações do documento da SBD é que, diante de uma refeição com mais gordura e/ou proteína, deve-se intensificar a monitorização da glicemia, especialmente pós-prandial (2, 3 e 5 horas depois da refeição). Sabendo o que acontece particularmente com o seu organismo diante de refeições com esse perfil, fica mais fácil estabelecer uma estratégia para tais situações. Converse com o médico e o nutricionista para saber qual conduta pode ser adotada.
Como bem lembra também a Nota Técnica, a educação é sempre a ferramenta para otimizar a aderência à terapia nutricional, tornando possível à pessoa com diabetes compreender a importância e a influência dos diferentes tipos de alimentos na chamada “homeostase glicêmica” (níveis de açúcar dentro dos padrões adequados) e, consequentemente, na prevenção de complicações de curto e longo prazo.  


Para saber mais:

Sociedade Brasileira de Diabetes: www.diabetes.org.br

terça-feira, 23 de julho de 2019

Glicemia sob controle por mais tempo


A hemoglobina glicada tem sido usada desde o início dos anos 90 – mais precisamente a partir de 1993, após a publicação do famoso estudo DCCT (Diabetes Control and Complications Trial) – como parâmetro de controle do diabetes (leia "Hemo"...o quê?).

Há alguns anos, porém, com a disseminação do uso dos sistemas de monitoração contínua de glicose (CGM, do inglês continuous glucose monitoring), surgiu um jeito diferente de olhar a glicemia. E, com isso, um novo conceito para se estabelecer se os níveis de açúcar no sangue estão ou não como deveriam: o tempo no alvo (ou, em inglês, time in range). 
Ah, você já ouviu falar! Mas é coisa para diabetes tipo 1, certo? Nada disso. Tanto a monitorização contínua como o tempo no alvo (ou tempo na meta) são conceitos e práticas que podem ser bem úteis também para o DM2.
Falando primeiramente em monitorização contínua da glicemia. É aí que a mudança começa. Os aparelhos de monitorização contínua aferem a glicemia no fluido intersticial, ou seja, no líquido entre as células – portanto, é diferente da glicemia capilar, medida na ponta do dedo e que capta o sangue dos capilares sanguíneos (pequenos vasos periféricos, nada a ver com cabelos, ok?).
A tecnologia já existe há alguns anos, mas antes estava restrita aos usuários de bomba de insulina (Sistema de Infusão Contínua). Há cerca de 3 anos, chegou ao mercado o Free Style Libre, da Abbott, que pode-se dizer “popularizou” a monitorização contínua de glicose. Porque funciona de forma independente do tipo de tratamento utilizado. Ou seja, pode ser usado por quem usa bomba, insulina e/ou medicação.
Deixando claro aqui que a monitorização contínua não é um privilégio do Libre. Trata-se de uma tecnologia que veio para ficar e em breve estará disponível em outros devices também no Brasil.
O que a monitorização contínua traz de revolucionário é a possibilidade de se saber o que acontece com a glicemia O TEMPO TODO. Ou seja, mesmo entre aquelas medições tradicionais. Pense assim: a glicemia capilar, realizada na ponta de dedo com o glicosímetro, é uma “fotografia” do nível de açúcar no sangue; já a aferição com um aparelho de monitorização contínua é um “filme”. Outro diferencial do novo sistema é que aponta a tendência da glicemia (se está estável, caindo, subindo). Uma espécie de “possíveis cenas dos próximos episódios”, para usar a mesma imagem.
Vantagens para o controle? Diversos estudos têm atestado a melhora da hemoglobina glicada devido ao uso da monitorização contínua. E também para o DM2. Levantamento apresentado durante o último congresso da ADA (American Diabetes Association) e divulgado no mês passado mostra que pessoas com diabetes tipo 2 (média 63 anos de idade) tiveram redução de 1 ponto percentual nos níveis de hemoglobina glicada depois de 3 a 6 meses de uso da monitorização contínua. Lembrando que essa redução aconteceu sem que houvesse qualquer alteração no tratamento. Ajustes nas doses de insulina ou na medicação ocorreram, é claro. Mas o impacto mais sensível da monitorização contínua é sobre o comportamento da pessoa com diabetes. Porque evidencia o que acontece com a glicemia nas mais diversas situações. Traz, em síntese, autoconhecimento.
A monitorização contínua corrobora  o que médicos e demais profissionais de saúde que lidam com diabetes já sabiam na teoria: manter a hemoglobina glicada dentro da meta (até 7%) nem sempre significa um controle super eficaz. A HbA1C é a média da glicemia nos 3 meses passados. E, como média, pode ser obtida a custa de muitas oscilações entre hipos e hiperglicemias. Daí é que surge o conceito de tempo no alvo como forma de se estabelecer um controle ainda mais efetivo. Como o próprio nome diz, significa por quanto tempo no último mês, semana ou qualquer período selecionado – a pessoa permaneceu com as glicemias dentro da meta (normalmente entre 70 e 180 mg/dl). Quanto maior esse período no alvo, melhor.
A monitorização contínua permite que o tempo no alvo seja conhecido e que possa ser usado como parâmetro. O ideal é manter as glicemias na meta durante pelo menos 70% do tempo, o que equivale a ter uma hemoglobina glicada de 7% -- portanto, dentro do adequado para se evitar as complicações. Lembrando que as hipoglicemias (menos do que 70 mg/dl) devem estar presentes no máximo 4% do tempo. E as glicemias elevadas (mais do que 250 mg/dl) não devem ultrapassar 25% das taxas obtidas.
A monitorização contínua ainda não é acessível a todos, infelizmente. Usada ininterruptamente, tem custo de quase R$ 500,00 mensais. É possível experimentar apenas por um período (o sensor do FreeStyle Libre dura 14 dias), como uma espécie de avaliação para se detectar problemas no controle.
A expectativa é que novos dispositivos cheguem ao mercado, aumentando a concorrência e reduzindo o preço. E, principalmente, tornando possível para mais pessoas encontrar um controle glicêmico ainda mais acurado.

Para saber mais:




Nova insulina no mercado. E eu com isso?

Chegou recentemente ao mercado brasileiro a insulina FIASP ( Fast-Acting Insulina Aspart ), do laboratório Novo Nordisk. Trata-se de uma i...