sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Pés a salvo – parte 1


O risco de amputação é, juntamente com a perda da visão, o maior medo das pessoas com diabetes, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha no último mês de maio. Não por acaso: quanto maior o tempo de diabetes – e quanto mais tempo a glicemia fica fora de controle – maior a possibilidade de surgir complicações nos pés, o chamado “pé diabético”.
O nome é horrível, não? A definição OMS (Organização Mundial da Saúde) também não é das mais reconfortantes: situação de infecção, ulceração ou também destruição dos tecidos profundos dos pés, associada a anormalidades neurológicas e vários graus de doença vascular periférica, nos membros inferiores de pacientes com diabetes mellitus..
Vamos entender: o chamado “pé diabético” pode ser considerado uma síndrome, pois é uma condição derivada da associação de diversas complicações da glicemia descontrolada.
Tudo começa com a neuropatia (leia Á flor da pele), complicação caracterizada por danos aos nervos, impedindo a transmissão de mensagens para os pés, que começam a perder sensibilidade. Ao mesmo tempo, os músculos intrínsecos do pé ficam sem o estímulo nervoso e atrofiam, causando fraqueza muscular e até mesmo dificuldades para caminhar. É alta a incidência de joanete, pé cavo e dedos em garra (os ossos, sem a força da musculatura, se deslocam de forma inadequada). Também são frequentes as rachaduras na pele, já que a neuropatia causa anidrose (menor sudorese), tornando a pele da região ressecada e mais suscetível a rupturas.
O cenário se torna então propício ao surgimento de úlceras, que podem ser causadas por traumas externos ou pela distribuição anormal da pressão interna dos ossos. A baixa sensibilidade reduz ou mesmo elimina a dor e o incômodo, o que impede atitudes protetoras, como tirar a pedrinha que está machucando no sapato ou mudar o padrão de marcha para não sobrecarregar a área ferida.
Para piorar, tem-se a doença arterial periférica, com a redução do fluxo de sangue (logo, de oxigênio e nutrientes) para os pés, intensificando os danos aos nervos e dificultando a cicatrização das úlceras.
Ruim, não é?
Pior: no mundo inteiro, a síndrome do pé diabético afeta 6,4% dos indivíduos com diabetes, segundo a IDF (International Diabetes Federation). O problema é mais frequente em homens e no diabetes tipo 2. Está ligada à idade, ao tempo de diabetes, à glicemia descontrolada e a comorbidades, como hipertensão e tabagismo.
Claro que a situação é mais problemática nos países em desenvolvimento, onde 25% das pessoas com diabetes desenvolverão pelo menos uma úlcera do pé durante a vida. O problema é que apenas 2/3 das lesões cicatrizam e 28% resultam em algum tipo de amputação. A cada ano, 1 milhão de pessoas com diabetes, de todo o planeta, perdem uma parte do pé ou perna. São 3 amputações por minuto. Uma amputação a cada 20 segundos.
Esses números alarmantes tornam o pé diabético um problema de saúde pública. É uma das complicações do diabetes que geram mais custos para o sistema de saúde, público e privado. Custos relacionados principalmente às hospitalizações, mas também com o tratamento e acompanhamento de pacientes ambulatoriais. Sem contar os custos não médicos, com perda de produtividade, compra e manutenção de órteses e próteses, assistência domiciliar e serviços sociais para pacientes que sofreram amputação.
Apesar da prevalência e gravidade, a síndrome do pé diabético continua a ser sub-diagnosticada e sub-tratada. A própria IDF alerta que poucos profissionais de saúde sabem reconhecer os sinais da neuropatia periférica e/ou como lidar e tratar o pé diabético. Estudo multicêntrico realizado no Brasil em 2006 mostra que 58% dos pacientes com DM2 atendidos em centros especializados e não especializados não tiveram seus pés examinados pelos profissionais de saúde. O estudo tem mais de 10 anos, mas a realidade não mudou muito.
O importante é saber que o problema dos pés no diabetes pode ser prevenido. E, quando aparece, o manejo correto e abrangente pode reduzir o risco de amputação e complicações em até 85%.  
Por isso, em 2017 a IDF lançou um guia com recomendações para a prevenção primária do pé diabético. O objetivo principal é conseguir a detecção precoce de problemas, evitando desfechos traumáticos. O guia, como reforça a IDF, não serve apenas para as clínicas especializadas em cuidados com os pés, mas para todos os profissionais que lidam com a pessoa com diabetes.
A ideia é que os profissionais de saúde examinem os pés do paciente, tenha ele sintomas ou não. A recomendação é que, além do exame clínico, sejam realizadas periodicamente a avaliação de sensibilidade protetora (testes diapasão e monofilamento) e avaliação de vascularização (palpação dos pulsos dos pés).
O guia da IDF lembra que é preciso identificar e tratar as úlceras e áreas pré-ulcerativas. O objetivo deve ser manter a pessoa com diabetes capaz de caminhar, não só pelos motivos óbvios, mas porque caminhar é uma forma simples e eficaz de atividade física que ajuda a controlar a glicemia.  Lembrando que a neuropatia periférica não é contra-indicação para exercício. É possível manejar o tipo, a intensidade e a duração de forma a garantir que a atividade seja realizada para prevenir inclusive o avanço da própria neuropatia.
Volto a afirmar: os problemas nos pés PODEM SER EVITADOS. Não apenas com a manutenção da glicemia sob controle, mas com uma série de cuidados com os pés. Quer saber mais? Veja no próximo post.

Fontes:

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