sábado, 14 de julho de 2018

Pane nos filtros


A nefropatia ou Doença Renal do Diabetes (DRD) é uma das complicações microvasculares da glicemia elevada. Atinge até 40% das pessoas com diabetes e é a principal causa de ingresso em programas de diálise.

Como acontece? Os rins funcionam como filtros do organismo. Têm a função de eliminar, pela urina, diversos tipos de resíduos do metabolismo presentes no sangue e preservar as substâncias importantes, como as proteínas. Essa filtragem é feita pelos néfrons, estrutura renal onde estão os glomérulos, que são aglomerados de capilares sanguíneos (vasos muito finos) por onde circula o sangue arterial a ser filtrado.
A glicemia elevada provoca alterações bioquímicas que causam danos ao revestimento interno dos pequenos vasos que formam os glomérulos. O que, por extensão, danifica os néfrons. A destruição progressiva dos néfrons impõe um estresse a todo o sistema de filtração, danificando todas as estruturas envolvidas. Dependendo do dano, os rins param de funcionar, causando a chamada insuficiência renal.  
Existe um fator genético que predispõe ao desenvolvimento da nefropatia. Mas o risco maior tem a ver com o tempo de diagnóstico de diabetes (e da glicemia descontrolada) e com a presença de doenças associadas (as chamadas comorbidades). Hipertensão, dislipidemia (colesterol e triglicérides elevado) e tabagismo têm papel importante na instalação e progressão da doença renal do diabetes.
O que isso quer dizer, na prática? Que é possível prevenir o surgimento da nefropatia. Segundo o DCCT (Diabetes Control and Complications Trial), um dos mais importantes estudos sobre diabetes já realizados, manter a hemoglobina glicada em menos do que 7% reduz em 50% o desenvolvimento e progressão da doença renal no diabetes. Outro estudo importante, o UKPDS (United Kingdom Prospective Diabetes Study), mostrou que indivíduos com DM2 recém-diagnosticados e tratados intensivamente tiveram redução de 30% no surgimento e evolução da nefropatia, efeito protetor que persiste por pelo menos 10 anos. Mesmo entre aqueles com DM2 de longo tempo, a melhora do controle glicêmico também mostrou redução do risco de dano renal.
Também é importante para prevenir a doença renal no diabetes ficar de olho nas doenças associadas. O controle da pressão arterial pode retardar substancialmente o início e a progressão da nefropatia. O estudo UKPDS mostrou que a redução de 10 mmHg na pressão sistólica (o número maior da medição de pressão) diminui em 13% nas complicações microvasculares do diabetes, incluindo a doença renal.
O Consenso da American Diabetes Association (ADA), National Kidney Foundation (NKF), e American Society of Nephrology (ASN) recomendam metas de pressão de no máximo 140 mmHg X 90 mmHg para todos os indivíduos com diabetes, com ou sem doença renal.
O excesso de colesterol e triglicérides, por sua vez, pode não apenas agravar a doença renal como, associado a ela, aumentar o risco cardiovascular. Por outro lado, estudos clínicos mostram que manter dislipidemia sob controle tem efeito nefroprotetor, tanto no desenvolvimento como na progressão da doença renal do diabetes.
Outra medida fundamental para evitar a nefropatia: parar de fumar. Dá para imaginar o que sofrem os rins quando precisam filtram os resíduos maléficos do cigarro?

RASTREAMENTO
A nefropatia é em geral assintomática. Ou seja, vai causando estragos sem dar sinais. Podem surgir sintomas pouco específicos, como inchaço, perda de sono, falta de apetite, dor de estômago, fraqueza e dificuldade de concentração. Alguns notam que a urina passa a ficar espumosa. O problema é que esses sinais só aparecem quando o quadro já está grave.
Para quem tem diabetes, é fundamental o acompanhamento periódico da função renal. A primeira manifestação da doença renal do diabetes é a excreção urinária de albumina, uma das proteínas que circulam no sangue. Por isso, os exames de rastreamento da nefropatia medem a microalbuminúria, a excreção de pequenas partículas de albumina.  
A recomendação é que toda pessoa com diabetes tipo 2 faça a pesquisa microalbuminúria já no diagnóstico. E depois pelo menos uma vez por ano. O exame mais utilizado é muito simples: basta uma amostra isolada de urina, colhida preferencialmente pela manhã.
O diagnóstico precoce é essencial para evitar a progressão da doença. Vá ao médico regularmente e pergunte a ele sobre a avaliação da função renal.
Reafirmando: ter diabetes NÃO significa estar fadado a ter doença nos rins. O que causa doença é a hiperglicemia continuada, ou seja, muito açúcar no sangue durante muito tempo.
Para afastar o risco de nefropatia, faça exames regulares, mantenha a sob controle a glicemia, a pressão arterial e a dislipidemia. E fique longe do cigarro.
Prevenir continua sendo o melhor remédio.

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