sexta-feira, 15 de junho de 2018

O coração padece - parte 2 (gordura no lugar errado)


Recentemente, falei aqui sobre a relação entre diabetes e doenças do coração.  Sobre como a glicemia alterada pode aumentar as chances do desenvolvimento de doenças cardiovasculares (Leia E o coração padece).
Se por si só o descontrole glicêmico traz risco, pior é quando existe uma comorbidade, outra condição para colocar o coração em perigo ainda maior.
Uma das mais comuns e insuficientemente consideradas é a dislipidemia, caracterizada pela presença de níveis elevados de lipídios (gorduras) no sangue. Ou seja, níveis elevados de triglicérides e colesterol. O que é comum entre no DM2. Um estudo realizado na Alemanha com cerca de 1.200 pessoas com diabetes tipo 2 mostrou que quase 55% tinham dislipidemia e, desses, apenas 23% conseguiam atingir as metas com relação ao perfil lipídico.
As principais gorduras que circulam no sangue são:
·         Triglicérides: Moléculas formadas por ácidos graxos (gordura) e glicerol (um álcool). Têm a função de armazenar energia. O aumento de triglicérides é a alteração de gorduras sanguíneas mais frequente no diabetes tipo 2. Especialmente porque a resistência à insulina eleva a concentração de triglicérides no sangue.
·         LDL-c: lipoproteína de baixa densidade. Como próprio nome diz, é uma molécula composta de gordura e proteínas carregadoras (já que, sozinha, a gordura não se mantém no meio aquoso do plasma/sangue). É o chamado colesterol ruim. Transporta o colesterol produzido no fígado e intestino para as membranas celulares. Em excesso, tem potencial antiinflamatório e aterogênico, ou seja, favorece a formação dos ateromas, as placas de gordura que se prendem ao endotélio, o revestimento interno das artérias.

·         HDL-c: lipoproteína de alta densidade. Também uma molécula de gordura e proteínas. Tem a função de remover o excesso de colesterol dos tecidos e levar para o fígado, onde é degradada. Tem função protetora nos vasos.


Hoje, o foco do tratamento da dislipidemia está em manter o LDL-c dentro das metas terapêuticas. O que é ainda mais mandatório para os indivíduos com diabetes. Isso porque a glicemia elevada provoca a chamada glicação do LDL-c. É uma reação química que tem como primeira consequência o aumento da meia-vida do LDL-c. Ou seja, o tal colesterol ruim fica mais tempo circulando e fazendo estrago. Sim, porque esse processo de glicação também facilita a oxidação da molécula, aumentando o potencial de agressão ao endotélio e de formação de ateromas. Sempre lembrando que são essas placas de gordura que podem provocar os chamados eventos cardiovasculares, como infarto e AVC (acidente vascular cerebral ou derrame).
Por isso para as pessoas com diabetes o risco é maior mesmo com igual grau de dislipidemia de uma pessoa sem diabetes.
O tratamento intensivo para redução de LDL-c é o melhor caminho para a prevenção de problemas cardíacos. Diversos estudos já demonstraram redução significativa dos eventos cardiovasculares agudos naqueles que atingiram alvos mais rigorosos de LDL-c.
Veja as metas terapêuticas preconizadas pela SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia):


Qual o seu risco cardiovascular? Essa avaliação é feita pelo médico, preferencialmente um cardiologista. Para ter uma idéia, você pode usar a Calculadora para Estratificação de Risco Cardiovascular da SCB,
Mas saiba que, por causa de tudo que foi dito acima, quem tem diabetes é em geral considerado um paciente de alto risco cardiovascular pelo simples fato de ter diabetes. Se já tiver sofrido algum evento ou tem diagnóstico de cardiopatia, vai para a categoria de risco muito alto. Nos dois casos, devem ser mantidas metas restritas com relação aos lípidios sanguíneos, de acordo com a tabela da SBC.
E o tratamento? As estatinas são os principais medicamentos utilizados para combater o colesterol elevado. Atuam no fígado, inibindo a síntese de colesterol. Existem nada menos do que 7 tipos de estatina, que variam de potencial de ação. Para complicar, a resposta ao tratamento com estatina varia de indivíduo para indivíduo. Daí porque é recomendada reavaliação a cada três meses (exames de laboratório), para garantir a manutenção das metas.
Para aqueles que, mesmo fazendo uso da estatina, continuam fora da meta, o tratamento deve ser intensificado. As diretrizes atuais da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) propõem três estratégias: 1) aumentar a dose da medicação em uso; 2) trocar a estatina por outra mais potente; ou 3) associar a estatina com outro fármaco, a ezetimiba, que reduz a absorção intestinal do colesterol. Existe ainda uma nova classe de medicamentos para baixar o colesterol, os inibidores da PCSK9. Ao bloquear essa proteína, o remédio aumenta a capacidade do fígado de reduzir o LDL-c. É um medicamento injetável e de custo elevado, mas que pode ser eventualmente considerado para pacientes de muito alto risco que não conseguem atingir as metas mesmo com o uso intensivo de estatinas.
E então? Já mediu seu colesterol este ano?




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